Entrevista com Porcas Borboletas (Uberlândia/MG)

Entrevista com Porcas Borboletas (Uberlândia/MG)

ago 29

porcas

Porcas Borboletas é,  há um bom tempo, um dos principais nomes da música brasileira. Com mais de 10 anos de estrada, a banda acaba de lançar seu terceiro disco e já tem turnês marcadas pelo Brasil (Franca vai receber, festa!). Suas composições são críticas, irônicas e sagazes, sua trajetória musical é marcada pela presença de grandes outros nomes da música brasileira como Arnaldo Antunes, Arrigo e Paulo Barnabé, Paulo Miklos, entre outros. Os caras responderam uma entrevista exclusiva para o Guerrilha Gig, falando sobre referências musicais, sobre a história da banda, sobre a estrutura da música ‘independente’ hoje no Brasil, sobre o Fora do Eixo, basta conferir abaixo: 

Guerrilha Gig: Vejo no Porcas um diálogo muito próximo com a denominada “Vanguarda Paulista”:  principalmente referente a 2 elementos: a entoação e a ironia. Sei que Arrigo e Paulo Barnabé participaram das gravações do segundo disco da banda, denominado ‘A Passeio’ (2009) e que vocês homenagearam Itamar Assumpção junto à presença de sua filha no programa Cultura Livre e no show ‘As Próprias Custas S/A’. Além dos irmãos Barnabé  e de Itamar vocês também tem como referência os trabalhos dos Grupos Rumo, Premeditando o Breque e Língua de Trapo?

Porcas Borboletas: Sim, a gente adora toda essa turma. Sem dúvida, esses caras são um grande acontecimento da cultura. É interessante você perguntar isso. Essa pergunta faz pensar nesse outro tipo de sujeito, esse outro tipo de ente, que são as turmas. Faz lembrar imediatamente da turma dos baianos, dos tropicalistas. Ou da turma dos novaiorquinos, Velvet Underground, Lou Reed, Andy Warhol e tudo o mais. Que nos leva a Bowie e a Iggy. Que nos leva aos Stooges e aos New York Dolls. Que nos leva a João Gilberto, Tom Jobim, Newton Mendonça e o pessoal da bossa nova. Que nos leva a Xico Sá, Otto, Nação Zumbi, Karina Buhr e todos os pernambucanos. Que nos faz lembrar também de Brian Eno e David Byrne. A gente acaba se lembrando, afinal, de toda a rapaziada, as várias turmas espalhadas Brasil afora. Turmas não somente formadas por compositores. Mas por estudantes, gente que gosta de consumir e pensar a arte. Massa pensar nesse outro tipo de sujeito. Um sujeito coletivo. Nossa música, toda a música, não seria a mesma, não fosse a ação desse sujeito composto.

Guerrilha Gig: Como foi o contato e o trabalho com Arrigo e Paulo Barnabé? O entrosamento veio fácil?

Porcas Borboletas:  Conhecemos Arrigo e Paulo ainda nos tempos do vinil. Alguns discos chegaram por fita cassete. O entrosamento veio fácil. Aquela sensação: parece que somos velhos conhecidos. Muito disso vem pela empatia, por estarmos afinados num mesmo diapasão. Um diapasão que eles mesmos, aliás, ajudaram a definir. Mas muito da empatia vem também do fato de o Arrigo e Paulo serem muito, muito gente boas. Divertidíssimos, espirituosos, cada um à sua maneira. Com o Arrigo, tomamos uma cerveja, jantando um PF. Ele contou um monte de histórias sobre o Santos Futebol Clube. Com o Paulo, viajamos de van, de Belo Horizonte a Governador Valadares. Maior calorão, todo mundo sem camisa, cantando música sertaneja. O Paulo cantarolou algumas composições inéditas suas. Aproveitamos o ziguezague da estrada pra compormos algumas coisas.  

GG: A carreira de vocês ultrapassa uma década de trabalho e completará 14 anos em 2013. Como e porquê surgiu a banda, quero dizer: o que os motivou a compor e criar?  

PB: A gente compõe pra se divertir. Muitas das nossas canções nasceram em roda de violão, todo mundo meio bêbado, rindo de situações imaginadas. É um processo espontâneo, genuíno. Meio sem intenção definida a priori.

Porcas-Borboletas_Foto-João_Paulo_Bitencourt

GG: O que mudou do início da carreira até o momento atual?

PB: Essencialmente, quase nada mudou. A banda sempre operou no diapasão do hedonismo. Nosso maior objetivo é se divertir, estar perto das pessoas, viajar, conhecer o Brasil e o mundo. Outra coisa que se manteve: gostamos de fazer uma música que possa causar  embalo. Nesse ponto, somos mais artistas que hedonistas. É uma grande alegria saber que uma música nossa tocou alguém, fez parte da vida. Isso talvez seja o que dirija o processo. Essas características, direções, sempre estiveram aí. Não houve  uma grande virada.

GG: O Porcas Borboletas já realizou alguns shows na Europa. Como foi a passagem da banda pelo ‘velho continente’?  Foi nítido uma diferença estrutural se comparado ao Brasil?

PB: A gente tocou no Queen Elizabeth Hall, um dos teatros mais importantes do mundo. Bebemos cerveja no palco. Depois do Porcas, quem tocou foram os Mutantes. Bebemos cerveja na plateia, trocando ideia com as pessoas, todo mundo à vontade. Sentimos essa diferença: na Inglaterra as pessoas são mais desencanadas. Acho q é um povo menos católico. Nâo tem essa solenidade, “beber só lá de fora, porque o ser humano é um tosco que vai sempre derramar cerveja sobre o tapete”. Do show, fomos todos pro hotel, a gente e mais um monte de amigo. Foi uma farra homérica, utererê e tudo, e ninguém veio encher o saco. Sentimos que no Brasil somos mais encanados. A gente acha que a culpa é do catolicismo. Essa coisa católica de não gostar de gozar. De vigiar a alegria. Precisamos repensar algumas coisas. Viajar pra fora sempre desperta esse tipo de reflexão. Em termos de estrutura, vivemos um momento ótimo no brasil. Casas de show sensacionais, com som, decoração, iluminação, tudo bonito. Essas casas me parecem ser o q existe de mais sadio na cultura rocker, no momento. São realmente independentes, oferecem carta de cervejas q vão muito além das ambevs da vida. E propõem aquela desencanação sadia, sobre a qual falávamos, a respeito do teatro de londres.

GG: A banda é toda de Minas Gerais? Como esse fato influência na música de vocês?

PB: Somos todos mineiros. Não sei se há dados culturais essencialmente mineiros. Mas, se houver, esses dados do local estão presentes no nosso jeito jeca de ser. Somos sertanejos, crescemos sob um sol de lascar, uma seca braba. Crescemos ouvindo música sertaneja. A música sertaneja dita de raiz, e o breganejo. Gostamos muito  de tudo isso. É um universo muito rico. Somos caipiras, jecas, capiaus dos pés à cabeça. 

 GG: Porcas acabou de lançar seu terceiro álbum completo, homônimo. Como foi a produção geral desse disco e quais  os planos para o futuro ?

PB: A produção foi tranquila. Fizemos as composições, arranjamos, sempre em clima de festa, mas com a máxima seriedade. Tudo pronto, colamos no estudio El Rocha, da família Takara, verdadeiro santuário do audio. Fernando Sanches gravou, mixou e masterizou. A gente mesmo produziu, sem frescura nem solenidade. Gravávamos de dia, discutíamos soluções na madrugada. Nossos planos para o futuro são, basicamente, seguir vivendo, beber  umas cervejas artesanais, conhecer as pessoas mais legais do país, viver uns amores, e cantar sobre tudo isso.

GG: Como se deu o contato com Paulo Miklos e como foi (é) trabalhar com ele?

PB: Miklos é um lord punk, um verdadeiro cavalheiro, é a generosidade em pessoa. O cara é um erudito. Entende do metiê como ninguém. Dá entrevista, fotografa, canta, faz tudo magistralmente. No palco, é um colosso. Miklos é um dos artistas mais importantes pra gente. Desde pequenos, nos alimentamos com o biscoito fino que ele tem produzido ao longo dos anos.

 GG: Qual a opinião  da banda sobe a  ‘cena’ de música autoral ‘independente’ no Brasil  hoje? Como vocês enxergam as árduas críticas que o Fora do Eixo vem recebendo?

PB: O momento tá genial. Tem muita, muita gente barbarizando. Shows incríveis, discos altamente expressivos. E tudo está realmente independente. Não dependemos dos meios de comunicação, nem dos oportunistas de plantão. Existe um circuito cada vez mais consolidado, um circuito que começa pelo emissor e chega diretamente  ao receptor. E, o melhor, um circuito de mão dupla. Porque o emissor escuta o que diz o receptor. Se a música está legal ou não, etc. Nesse sentido, rola constantemente essa inversão de papeis. Todo mundo é emissor, todo mundo é receptor. A morte do atravessador talvez seja a grande conquista da música brasileira. Sobre as críticas ao Fora do Eixo: acho que, pelo que o coletivo se propõe, receber críticas é normal e pode até ser proveitoso. Porque o FDE tá sempre se atualizando, se redefinindo, como projeto. Acredito que o saldo de todo esse papo pode trazer benefícios.

GG: Qual a expectativa para a passagem do bando por Franca?

PB: Adoramos a cidade, estamos fissurados, torcendo pra que seja mais uma noite daquelas.

Amanhã: Porcas Borboletas, Clube dos Bagres e Catexia se liga nas informações abaixo:

guerrilha gia convida. porcas boroboletas


Fatal error: Uncaught Exception: 12: REST API is deprecated for versions v2.1 and higher (12) thrown in /home/guerrilhagig/blog.guerrilhagig.com/wp-content/plugins/seo-facebook-comments/facebook/base_facebook.php on line 1273