Entrevista Luis Gustavo e o lançamento de “Em Casa de Pai João”

Entrevista Luis Gustavo e o lançamento de “Em Casa de Pai João”

jun 29
luisinho gustavo
 
 
 
 
Luis Gustavo é formado em Direito pela UNESP, e não deixou que o curso desmantelasse sua veia artística. Luis mostrou  que  entre as atividades jurídicas e a expressão a partir da música, a segunda floresceu de uma maneira bela.   O cara acabou de lançar um trabalho bem raro na cidade, totalmente autoral e que deixou muita gente de boca aberta.  O disco contou com a participação de muitos músicos renomados na cidade e também foi indicado por um dos principais blogs de música popular brasileira  o ‘UmQueTenha. Eu tive uma conversa via internet bem interessante com Luis, e o resultado dessa entrevista você confere abaixo: 
 
Guerrilha Gig:  Como foi sua mudança até Franca? O quanto essa  mudança de cidade influenciou nas composições de sua  música? Ou você é francano mesmo?
Luis Gustavo: Sou de Franca, morei aqui todo meu tempo, com exceção de dois anos, talvez pouco mais, em que estive noutras cidades e fora do país. E de certo a cidade tem suas importâncias. A primeira delas é que eu entrei na música pela porta do cancioneiro caipira, que meus pais ouvem com muita frequência, e que de certa forma se tornou meu primeiro repertório. Sobretudo Tião Carreiro. Isso tem muito a ver com Franca, pois nós estamos numa cidade que, ainda não se sabe como, preserva e reproduz um certo discurso de um caipira paulista que já não existe mais. A segunda delas é que topei com professores de música que me ajudaram um bocado, a Lúcia Garcetti, o Mauro Medeiros, o Luís Carlos e mais recentemente o Helton Silva. A terceira é que, em 2004, um ano antes de entrar no curso de Direito da UNESP, eu comecei a frequentar a República Saudosa Maloca, na Rua do Comércio, levado por um professor de história, o Edgar. Lá eu conheci o chôro de raiz, o samba velho e que, infelizmente, não vi mais em Franca. Mas sobretudo conheci o Cléber Sberni, que daí em diante se tornou um amigo muito próximo, e uma espécie de contínuo interlocutor nos papos de música. Foi lá que tomei contato com o Kind of Blues, de 59, com Nelson Cavaquinho, com o Clube da Esquina, etc. Durante a faculdade, outra leva de pancadas, conheci meus parceiros de música: René, Estevão e Denis, na sequência. Além disso, tivemos um grupo de samba, o Canta Galo Samba Clube, de que fizeram parte o Denis, o Tião, a Ternura, o Rique, Seu Jorge e eu. Foi também um aprendizado, tocamos muito em festa da UNESP e mesmo fora de Franca. Tudo isso relacionado à cidade, porque a gente se alimentava de coisas de fora, mas produzia e interpretava tudo aqui. Um dado interessante: não sei se você já ouviu falar, mas em 2007 e 2008 aconteceram as chamadas Rayves, ali na Rua Zeca de Paula. O Estevão, esse amigo, fez Direito aqui também, ele é pianista, e organizou dois eventos em que se tocava chôro, samba, bossa, seresta, rock, jazz, música clássica, num período de 24h. Olhando com cuidado, foi uma proeza  um evento desses se sustentar aqui, por 24h. A turma da UNESP descia em peso e passava horas, virava a noite, ouvindo esse tipo de coisa. Esses dias eu reencontrei o Seu Ramón, uma figura, grande gaitista, sábado passado fui a uma seresta na casa dele e amanhã  irei de novo. Lá se tocam valsas e tangos belíssimos cujas partituras, pouco  duvido, são coisa rara, já ninguém mais toca. Ary Barroso, Antenógenes Silva, a valsa Suely, conhece?
 
Guerrilha Gig: O que você acha sobre a cena cultural em Franca? E em relação à  música autoral? Como você enxerga a
 situação dessa expressão hoje em dia na cidade? 
Luis Gustavo: Já não saio tanto de casa, mas daquilo que acompanho gosto muito. Sempre que posso vou ao Quinta-Jazz, no Noite Nossa, ver os amigos tocando por lá. Ali o jazz come solto e tem gente da melhor qualidade tocando com todo o gás coisas velhas e novas, construindo uma nova e consistente linguagem musical. Vem gente de Uberlândia, de Uberaba, Araxá, Ribeirão, Campinas, São Paulo tocar na quinta-feira.  Fora isso, já não sei tanto. Mesmo das festas universitárias, onde sempre acontece muita coisa boa, já não estou muito a par. Ouvi o álbum de vocês(catexia), ainda não todo, e gostei bastante. Tem um quarteto, Seu Oripe, excelente, e que logo vai lançar um registro de coisas deles. O Helton, que produziu o disco Em Casa de Pai João, tem um disco fabuloso de canções autorais. Daí vejo duas correntes bem claras: gente que vem pra Franca trabalhar, estudar, e faz música por aqui, organiza bandas, eventos, grupos, etc. e gente daqui que foi estudar fora e volta fazendo música com muita competência. De fato, ao olhar de perto, percebo bem que há aí uma questão geracional: jovens que foram estudar em São Paulo, Tatuí, Campinas, Rio, voltam pra ensinar e tocar aqui. No plano de fundo, um ponto importante: é gente que acredita que pode começar ou até mesmo fazer carreira por aqui. Isso implica pensar também num sistema cultural, no qual produtores de arte, receptores dessa arte e críticos de arte atuam de maneira conjunta para a composição de novos e melhores critérios do que é arte (um conceito, afinal, que não é nada relativo, por mais que insistam em dizer o contrário). Além disso, temos os músicos que estão fazendo sucesso noutro campo, mais geral, caso do Edu Machado e do Diego Figueiredo, excelentes músicos ambos, que já tem algum tempo são reconhecidos fora do país. E outros tantos, nem sei quantos nem todos, que estão por aí, fazendo coisa muito boa. 
 
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GG: Porquê  escolheu “em casa de pai joão’ para nomear o  disco? O que significa? 
LG: “Em casa de Pai João” é o nome de uma das músicas do álbum, e há uma razão bem certeira pra isso. A letra fala sobre o samba feito nos interiores paulistas, que não é o samba paulistano, nem tampouco o carioca. As imagens procuram favorecer essa leitura: a bandeira do santo de procissão, a figura do “pai joão”, tão emblemática dos terreiros de umbanda aos contos e canções caipiras, e o tamborim sem ocasião. Sobretudo essa ideia dos terreiros, de um lugar que já está no asfalto, mas cujo samba é feito de maneira quase sacramentalizada, em que aquilo que há de sincretismo é ele próprio fazenda, pano de fundo de outro concerto cultural. Escolhi o nome porque é essa, e não outra, a natureza do meu samba. Feito em Franca, no interior paulista, com a ascendência de congadas, folias de reis, festejos juninos, hábitos caipiras mais, afinal, as influências de fora, do samba, do jazz, etc.

GG – Quais os planos de divulgação do trabalho?- Como foi o  processo de gravação? 
LG: Gravamos apenas seis faixas e, logo seja possível, devemos gravar mais quatro faixas pro disco. O processo de gravação não foi muito doloroso, pelo contrário, foi bem divertido. Foi em julho e agosto do ano passado, mas em setembro viajei pra fora, e só há pouco pude postar os primeiros registros. O Helton, que é meu professor de violão e se tornou daí um grande amigo, foi quem fez os arranjos e pensou a produção do álbum. As referências musicais dele estão muito presentes no disco. Bote reparo na faixa “Mas”, e no fim você vai ver uma menção inequívoca à faixa “Cais”, do Clube da Esquina. Participaram das gravações o Gil, no teclado, o Diego, no baixo, o Fernando, na bateria, o Helton  na guitarra acústica e eu, com o violão e a voz. Taí. Depois de gravadas as faixas, terminado o álbum, vem a possível impressão dos discos, a divulgação do trabalho e, quem sabe, uma turnê.

Confira abaixo uma música que Luís compôs em uma viagem ao exterior:


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