Como foi o Grito Rock Franca 2013 (Sábado)

Como foi o Grito Rock Franca 2013 (Sábado)

mar 26

            No fim de semana passado (02 e 03 de Março), aconteceu em Franca a quarta edição do Grito Rock, evento que ocorre em mais de 300 cidades espalhadas por 30 países, e que ao contrário do que sugere o nome, não preza só pela divulgação do rock como gênero exclusivo. A origem do título remete a um trocadilho com o Grito de Carnaval, quando em uma Cuiabá de 2003, o pessoal do coletivo Espaço Cubo pensou em criar um carnaval que fugisse do ‘predomíniopólio’ dos gêneros de sempre: samba, axé, eletromelodybregapop paraense, etc etc.

            Desde que se firmou como projeto integrante do circuito Fora do Eixo, o movimento busca aproveitar o momento em que o Carnaval fagocita as atenções aqui pelas terras tupiniquins, para por em circulação bandas autorais dispostas a rodar pelo país apresentando seu trabalho. Embora em algumas cidades o evento já conte com um histórico de 11 realizações consecutivas, aqui por Franca, o projeto que começou faz pouco tempo, e que engatinha de tão recente, já se firma solidamente no palco dos eventos culturais da cidade, dando mostras da competência dos seus organizadores.

             Além da tradicional organização do evento, realizada pelo coletivo Guerrilha Gig, este ano o evento juntou esforços dos organizadores do Corredor Cultural de Franca: evento que ocorre num domingo de cada mês e cujo foco é ocupar espaços públicos com apresentações artísticas. Além desses esforços em conjunto, nesta quarta edição, uma parceria sólida foi firmada com a prefeitura da cidade – via seu órgão de fomento à cultura, FEAC – para tornar o evento parte integrante do painel cultural oficial de Franca e garantir uma bela parceria que a todos agrada e promete render muitos frutos.

            Não é pouco o peso de ações como essa. Assistimos (de muito bom grado) à sociedade civil que se organiza ser apoiada pelo poder público, justamente onde mais necessita de apoio: na parte logística. Ações como as que o pessoal do GG e do Corredor levam adiante atestam como há, sim, uma bela margem de liberdade de iniciativa de indivíduos que, desde que baseada em atitudes coerentes e num mínimo de bom gosto, podem dar certo e inclusive receber apoio institucional, ainda que incipiente.

            Neste ano, o primeiro dia do evento aconteceu no A.A. Francana, histórico clube da cidade que já abrigou o “Zona Franca”, outro evento do Guerrilha Gig e que fica bastante perto da praça que serviu como local para o segundo dia de Grito Rock. Juntos, esses dois locais, por sua vez, ficam próximos à Rua Simão Caleiro, que tradicionalmente acolhe os eventos do Corredor Cultural todo mês. Falado tudo isso, aí vai o que realmente importa: está ocorrendo uma revitalização cultural dessa área central da cidade através do empenho e da atitude criativa desses indivíduos bem dispostos. É meus caros, quem viveu, viu. Franca parece estar mudando de ares com ações como essas, e isso é muito bem vindo para todos nós, publico que tem o prazer de aproveitar esses espaços.

            Talvez a apresentação do Grupo Ato de teatro tenha resumido bem o propósito de eventos como os que estão acontecendo em Franca. No primeiro dia de evento, e durante o intervalo de uma das bandas, os atores segredavam ao público estarem cansados de viver em Franca, uma cidade em que nada acontece; e lançavam à plateia, à queima roupa, a pergunta: “Mas mudar daqui ou mudar aqui?”. Pelo que parece, a resposta para essa pergunta já esteja sendo botada em prática, dentre outras, pelas mesmas pessoas que a indagavam.

            Quatro bandas – todas autorais – se apresentaram no sábado do dia 02. A primeira a subir no palco, por volta das 16 horas, foi “Fullgas”: prata da casa, um grupo de rock com pegada hardcore presente na cena musical de Franca e outras paragens desde 2006 – descontando um hiato de três anos longe dos palcos. Em seguida se apresentou o pessoal do “Vindos da Mata” (veja a entrevista), banda de reggae da cidade de Batatais, nas cercanias de Franca. O terceiro grupo a se apresentar foi o Tupi Balboa (veja a entrevista), power trio de rock oriundos de Santa Rita do Sapucaí-MG, mas que atualmente estão sediados em São Paulo. Fechando a noite e encerrando o primeiro dia de evento com som de ouro, Zonbizarro (veja a entrevista), outro power trio de rock (também de uma cidade mineira – dessa vez de Belo Horizonte) – deu o toque de encerramento oficial com seu som sem comparações. Durante todos os intervalos, houve discotecagem a cargo do pessoal do Paz e Dub Seletores, tocando o que há de mais fino dos ritmos caribenhos e a supracitada apresentação do Grupo Ato de teatro. Embaixo vai a descrição mais detalhada de cada apresentação, confiram!

Fullgas
406360_10151480452186484_1211317974_n

            A chuvinha lá fora, só na espreita – de praxe quando há eventos culturais – desaba no comecinho do show, forçando (numa sacada meteorológica) todo mundo a se abrigar no interior do salão de festas do clube. Ainda há poucas pessoas no evento, que apenas começara, mas já dá pra prever que a galera vai colar em peso no decorrer do dia. No palco, a banda francana Fullgas toca seu som que destila influências. Formado em 2006, o grupo sofreu alterações de integrantes durante o percurso e viveu um tempo ausente dos palcos; mas, juntos na nova formação, a banda revela sua versatilidade e bom gosto musical.

            São quatro integrantes: baixo, guitarra, vocal e bateria. No começo, ainda frios, as duas primeiras músicas pareceram não ter saído do jeito que os caras gostariam. Mas depois que eles descabaçaram o festival e já estavam mais à vontade, a banda deslanchou e voou longe. O vocal e o guitarrista são bastante performáticos encima do palco; combinam suas expressões corporais muito bem com a pegada do som. Os vocais de apoio do guita marcam os momentos altos dos refrões que grudam na cabeça. A voz principal não se destaca mais do que outras vozes do circuito hardcore, o que, de certa maneira, nesse meio, é até um charme ao invés de um defeito.

            O instrumental, forte da banda, é muito bom e bastante variado. Embora tenham uma pegada marcadamente hardcore, é possível distinguir uma miríade de outros ritmos do rock, o que contribui horrores para que a sonoridade da banda seja agradável aos ouvidos mais distintos. Os riffs são marcantes, melódicos e muito bem bolados. A cadência da guitarra às vezes lembra a de um trem feroz, bufando de raiva em busca do descontrole. Com a distorção no talo, o guita abraça com fé a treta de levar o som arranhento sozinho, dispensando outra guitarra no palco. O baixo e a bateria não ficam atrás, preenchendo o ambiente enquanto acompanham a guitarra muito bem.

            As músicas – reflexo da boa mistureba musical dos caras – não ficam só na monotonia hardcoriana, oferecendo-se bastante variadas a quem se deixar levar pelos embalos melódicos do conjunto. A banda passaria agradavelmente despercebida como uma banda independente. Seu som, agressivo, mas agradável, poderia fazê-los passear tranquilos por espaços já solidificados por bandas como o Deadfish, para ficarmos num só exemplo.

Vindos da Mata
vindos

            Após uma breve apresentação dos atores do Grupo Ato, o Paz e Dub Seletores – coletivo musical que, além de organizar eventos, discoteca uma sonzeira nas suas picapes – azeitou o público para a próxima apresentação, botando todo mundo pra dançar ao som de dubs, earlyreggaes e outros gêneros jamaicanos. Nada mais conveniente quando se trata de uma banda de reggae ser a próxima a se apresentar. No palco, a bandeira da banda já chamava a atenção do público que passava por ali a caminho do bar, revelando o nome da banda em tons de vermelho e verde sobre um fundo amarelo.

            Vindos da mata é uma banda vinda – perdão pelo trocadilho – de uma das cidades da região de Franca: Batatais. Seus integrantes afirmam ter bastante influência do jazz e do rock, além de claro, muito domínio no ritmo jamaicano que botou Bob Marley no alto do showbiz mundial. A outra influência estava estampada na camiseta de um dos músicos em caracteres que se juntavam para dizer “Aqui é ganja”. O grupo conta com 8 integrantes: um trompetista, um trombonista, um saxofonista, um tecladista, um guitarrista (também vocalista), um baixista, um baterista e um percussionista.

            Ver o show do Vindos da Mata é assistir a uma apresentação de uma big band de reggae. É muito prazeroso ver os metais em ação, ao vivo. E lá estão eles a se destacar quando o show começa com o cair da noite. É inevitável ser capturado pela atração que eles exercem, ainda mais quando a música de abertura da banda puxa prum Skatalities com pegada de afrobeat aqui e acolá.

            Infelizmente essa pegada inicial de ska e afrobeat não foi mantida pelo decorrer do show. Mas os caras não deixaram por menos. Seu som marcado pelo tradicional do reggae, tanto nas letras quanto no instrumental, era elevado à terceira potência pela presença de palco dos músicos. É indescritível a energia emitida por aquele tanto de gente entrosada encima de um palco. A plateia sacou de cara e se pôs a gingar pra lá e pra cá, num ritmo de união entre físico e sensorial.

            Falando em entrosamento, a banda é impecável em termos de coesão entre os músicos. Ninguém pretende se destacar mais do que ninguém – descontando o fator hipnótico natural dos metais, claro. Durante os intervalos entre as músicas, a banda atacava um dub com baixo e bateria solando sozinhos, enquanto os demais integrantes soltavam as rédeas da expressão corporal, dançando o que viesse na cabeça e que desse vontade de por pra fora.

            É com certeza uma banda para se ver e ouvir. O show pinga emoção e empolgação. Esperamos que Batatais nos presenteie com mais gerações de bons e empolgados músicos como os do Vindos da Mata.

Tupi Balboa
tupi

            O som do Tupi Balboa pode ser resumido em duas atitudes que nem sempre combinam quando juntas: virtuosismo e suingue. A chuva apertava lá fora, e no palco, o power trio já atacava suas primeiras composições.  Uma guitarra, um baixo e uma bateria. Pouca gente, sonzeira de um batalhão.

            Quebrando estereótipos, os caras conseguiam fazer dois fatores isolados se juntarem: um som com muita pegada negra, suingada, no melhor estilo do funk, e uma técnica que beira a obsessão. Com toda essa energia do funk saindo de seus instrumentos, o grupo dispensa bem dispensado a necessidade de um vocalista.

            A plateia parece ter aprovado a mudança total de clima. Afinal, esse é um dos propósitos do evento: divulgar bandas independentemente de suas vertentes musicais. O mesmo público que até pouco dançava ao som do ritmo jamaicano, agora assistia atenciosamente ao som com muita pegada do Tupi.

            O guitarrista se destaca nitidamente no palco. Além de ter um domínio surpreendente do instrumento, ele não dispensa uma boa presença de palco. O baixo segue a linha funkeada da guita e bateria vem arrasando tudo lá de trás. Quem viu, notou: o baterista, na ultima música, rufa a caixa num crescendo em frenesi animal, entrando no momento certo, impecável, extasiado de si mesmo. Coisa linda de se ver.

            Quando você menos espera, um clima brazuca entra no lance todo; uma mistura de baião com sambinha quebrado, regado a muito funk, confirma a vocação a que o título abençoa os integrantes: dois mundos se fundindo; um com um os pés aqui no Brasil – mais especialmente no trajeto Santa Rita de Cássia-MG – São Paulo-SP –, e outro com os pés fincados na terra que, além do cinema dos Balboas da vida, encheu o mundo da música com os ritmos negros mais variados.

            Tupi Balboa é uma banda que mescla dualidades, sempre jogando com uma e outra influência. Do interior à capital. Do nacional ao internacional. Do samba ao funk. Virtuosismo e suingue. Técnica concentrada e presença de palco. Enfim, é uma banda que só vendo para podermos tirar algum tipo de conclusão que, do contrário, seria não menos que precipitada.

Zonbizarro
zonbizarro2

            Caminhamos para o final do evento. As pessoas já começam a debandar, uma pena, pois as que se vão estriam prestes a presenciar um dos melhores shows que Franca já teve o prazer de receber. Alguns fortes resistem, e ainda assim, há uma considerável aglomeração de pessoas que a essa altura, bastante à vontade, se sentam no chão, bem próximos ao palco, dando um clima bem intimista a ultima apresentação da noite.

            É muito difícil descrever o som que o Zonbizarro toca. Algumas dicas e tentativas de comparação podem ajudar, mas correm sempre o risco da imprecisão. Uma coisa é certa: o som é pesadíssimo. As influências pairam sobre tudo o que há do melhor sendo feito no rock de ultimamente. O virtuosismo exala de todos os integrantes.

            Cena: guitarrista fritando, com reverbs delayzados no máximo, um som que lembra And So I Watch You From Afar; baixista mandando uns slaps frenéticos; baterista tocando um som quebradíssimo com suas baquetas. Isso descreve razoavelmente bem o visual da banda. O som, isso já é outro assunto.

            A música do grupo é complexa e pode não agradar a todos. Os de ouvidos treinados e acostumados ao mínimo de experimentação acharão o máximo, com certeza. Há diversas esferas na música desses mineiros de BH. Há, pairando no ar, enquanto eles tocam, ondas de som que nos fazem lembrar influências que vão do Metal, passam pelo Rock Clássico e pelos mais atuais, até cairem em cantigas de terror para assustar crianças.

            Eles nem apelam pruma presença de palco para criar a ambientação que desejam. Há um clima meio macabro que emana do som dos músicos, e que é extremamente difícil de distinguir de onde vem. O power trio – que tem vocal em algumas musicas – consegue mexer com você de um modo diferente, utilizando só a música. 

             Mais que uma banda propensa a criar trilhas sonoras para filmes de terror, o Zonbizarro é uma banda que parece brincar com as influências que possui, atiçando a curiosidade dos ouvidos atentos da plateia. É uma banda para se assistir (ao vivo, de preferência), deixar cair o queixo enquanto atentamos para a agilidade das mãos em contato com os instrumentos, e sentir o clima denso que os músicos manejam com tamanha habilidade.

Escrito por: Thiago Panini Primolan (Tuba)

 

 


Fatal error: Uncaught Exception: 12: REST API is deprecated for versions v2.1 and higher (12) thrown in /home/guerrilhagig/blog.guerrilhagig.com/wp-content/plugins/seo-facebook-comments/facebook/base_facebook.php on line 1273