Omar Rodriguez Lopez & John Frusciante

Omar Rodriguez Lopez & John Frusciante

fev 10

Capa: Omar Rodriguez Lopez e John Frusciante

John Frusciante, ex-Red Hot Chilli Peppers, e Omar Rodriguez Lopez, guitarrista do Mars Volta, embarcam na emocionante tarefa de dividir sonoridades integrando duas cabeças com conteúdos, background e estilos musicais diferentes. O resultado é esse cedezinho que vocês podem comprar, via download digital no site do cara, pela bagatela de U$$ 3,99 – uma pechincha se levarmos em conta a qualidade da obra. Se isso ainda não te convenceu a esvaziar os bolsos, saiba que toda a arrecadação das vendas seria revertida para o projeto social “Keep Music in Schools” (algo como “Mantenham a Musica nas Escolas”), que, como o nome sugere, insiste nos benefícios da educação musical à jovens em período escolar que nem sempre tem essa opção como escolha.

John Frusciante já fez várias parcerias com Omar Rodriguez, entre elas, as mais notáveis foram as contribuições nas gravações de estúdio para os álbuns do Mars Volta, as participações nos projetos solos de Omar, e também a banda de dub com pegada latina, Defacto, na qual os dois dividem espaço com Cedric Bixler, Jeremy Ward e Isaiah “Ikey” Owens, todos também membros da trupe marciana.

Contudo, muitos daqueles que sonhavam acordado – babando pelos cantos da boca – com a tão esperada parceria solo desses dois monstros do rock modernoso, tiveram que esperar até 2010 para o lançamento oficial dessa pérola musical – que fez mais do que jus à longa e ansiosa espera dos fãs. Já em Dezembro de 2010, quando lançado no Japão pela Sleepwell Records, o álbum estourou nas paradas de sucesso, terminando como o segundo mais vendido na lista de Rock Alternativo da Amazon japonesa e como o vigésimo-segundo álbum mais bem vendido na seção mais abrangente de Rock,  esgotando seu estoque em pouquíssimo tempo.

Trata-se de uma gravação minimalista, lo-fi até as vísceras. Foi gravada, segundo conta Omar, em seu quarto na primavera de 2003, utilizando um gravador de fitas de uma polegada. Foi aí também que ele aproveitara para tirar uma foto de John empunhando a guitarra, que mais tarde seria a capa da gravação desse encontro.

Embora na maioria dos casos as gravações minimalistas exijam uma certa coerência  temática – algo que une todas as musicas e melodias dispersas ao entorno de um eixo temático que dá sentido e qualidade à obra -, o álbum dos dois guitarristas arrisca voos mais ousados ao se desprender de quaisquer  convencionalismos  ou formalidades. Nele, as músicas se parecem mais com uma extensa superposição de camadas musicais – uma espécie de lasanha sonora – do que com um arranjo mais ou menos ordenado de músicas que gravitam ao redor de um núcleo – estrutura que faz as obras que obedecem a essa convenção lembrarem a organização dos alinhamentos planetários.
 

Não há um centro, um núcleo ou um tema ao redor do qual a obra deveria gravitar. Ao contrário, os dois músicos parecem ter primado pela livre e avassaladora liberdade de criação, respeitando tão somente a intuição e dando rédea solta para o experimentalismo. É, de certa forma, uma gravação na forma de “jam” musical. Contudo, abusar demais do termo “jam” pode dar uma falsa noção de descuidado, ou pior, de falta de labor minucioso sobre as criações desse álbum, o que seria uma imprecisão indesculpável. Há muito cuidado no preparo dessa mistura sonora coloidal, quase palpável. São texturas e mais texturas nas quais os mínimos, os mais ínfimos e quase imperceptíveis detalhes são tratados com um esmero quase obsessivo. 

É realmente uma obra que nos surpreende a cada vez que a ouvimos. A frágil aparência que podemos dar ao disco – e que só se justifica no caso de um primeiro contato eivado de preconceito, quando cremos que se trata de mais uma baboseira experimental sem pé nem cabeça – é de cara desmascarada quando notamos a densidade, quando damos ouvido aos abismos e picos que os músicos nos arremetem no decorrer de cada uma das faixas.

Na primeira e na ultima música, “4:17 am” e “5:45 am” respectivamente, somos presenteados com os solos de tonalidades superpostas (característicos de Omar) sobre uma base melódica colorida (e quase imperceptível) de John, que juntos, dão à música uma característica de paisagem de sonho ou de um ambiente subaquático. Recheada de delays, reverbs e wah-wah’s, a música consegue passar essa noção de elasticidade espacial típica de ambientes surrealistas. (Repare nos ruídos que imitam assovios de pássaros, emitidos pelo sintetizador).

A primeira música abre caminho para o preciso descortinar da segunda, “0=2”, que começa cativando já de cara os ouvintes que acharam a abertura do cd experimental demais. Ela segue um ritmo progressivo mais timbrado do tradicional post-rock. É basicamente marcada por uma sonoridade acústica: um violão marca a melodia enquanto os solos de guitarra dão a segunda textura de cordas, tudo isso sobre um quase imperceptível efeito eletrônico de chiado de fundo.

“LOE” é iniciada por um solo metálico com pegada espacial, para depois cair num ritmo marcado por uma batida eletrônica. O resto da música é uma bela combinação de solos e riffs incomuns que se realçam entre si e se entrosam muito bem com a batida meio hip-hop que leva o swingue da música.

Omar + John

A quarta, “ZIM”, lembra um pouco a atitude da segunda música, em termos de pegada mais progressiva esbanjando raízes post-rock. Dessa vez os sintetizadores e o baixo marcam a levada que é salpicada de lindas melodias e solos rasgados, que parecem cortar a estrutura frágil da mistura toda.    

“VTA” nos apresenta uma bela combinação entre acústica e eletrônica logo no começo, com violões e sintetizadores trabalhando muito bem em conjunto. No decorrer da música podemos ter a sensação que experimentam alguns viciados de heroína após o pico, ou a de um lançamento de foguete rumo ao espaço sideral, pelo fato de que a bela e coesa melodia inicial, aos poucos, vai sendo invadida (ou será que invade?) por uma sonoridade mais psicodélica e absurdamente abstrata, que dá uma sensação de desconexão e de derretimento.

A sexta música, “0”, que juntamente com “0=2” já estava disposta para download desde 2006, é outra faixa que agradará ao menos dispostos a experimentações. Sua sonoridade guitarristica coesa sobre um pano de fundo marcado pelo violão, dão prazer a qualquer um. Ela cumpre, de certo modo, a mesma função que “0=2” se levarmos em conta a posição que ambas ocupam no disco. “0=2” vem logo após uma abertura psicodélica e experimental como se fosse um alívio. “0” parece vir em socorro também, logo após a sensação de desconexão e de derretimento causado pela anterior, “VTA”, fazendo-nos lembrar do que acontece quando uma boa dose de adrenalina corta o transe overdosísitco em que um sujeito está submetido.

Falando em overdoses, derretimentos e coisas associadas ao mundo dos entorpecentes, vale a pena lembrar que tanto John Frusciante quanto Omar Rodriguez tiveram sua cota de envolvimento além da conta com os narcóticos e a heroína, principalmente. Tornaram-se célebres desse período nebuloso de abuso de drogas, tanto as entrevistas em que John aparece sobre o efeito de heroína ou crack (ou ambos) como o vídeo-documentário, “Stuff”, que seus amigos Johnny Depp e Gibson Haynes realizaram após John quase ter morrido em um incêndio iniciado em sua casa em Hollywood.

Não passará despercebido que ambos tentaram recriar esses ambientes de transes narcóticos na sonoridade do álbum, mesmo que não tenham declarado objetivamente nada a respeito. Junto com Shadows Collide With People – obra sublime que marca o período de superação de John sobre o vício das drogas – e de De-Loused in the Comatorium, do Mars Volta – que repôs os músicos marcianos nos trilhos da sobriedade após o incidente traumático (que o álbum faz alusão) da morte por overdose de Julio Venegas, amigo dos músicos –, o disco homônimo Omar Rodriguez Lopez & John Frusciante é uma bela volta por cima das adversidades da vida dos músicos e deve ser encarado com o devido respeito que momentos como esse exigem. 

Escrito por: Thiago Panini Primolan (Tuba).


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