O que as críticas esqueceram de mencionar sobre A Serbiam Film

O que as críticas esqueceram de mencionar sobre A Serbiam Film

jan 30

Estreando as críticas (resenhas, impressões, pitacos) aqui no blog do Guerrilha Gig, temos as palavras do mestre do pitaco, Thiago ‘Tuba’ Panini sobre ‘A Serbiam Film’, dá uma olhada:

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“A Serbian Film (Српски филм, em sérvio), traduzido para o português para o vago título de Terror sem Limites – confirmando nossa triste tradição de botar apelidos de mau gosto nos filmes gringos -, foi lançado em 2010 e causou muita polêmica por onde passou e também por onde deixou de passar. Foi proibido em países como a Suécia, Finlândia, Espanha, Noruega, Austrália e Brasil – que voltou atrás na decisão e suspendeu a proibição em 2012.

O frisson geral – embora exagerado, a meu ver – é passível de compreensão.

 

O filme conta a história de Miloš, um ator pornô em vias de se aposentar, preocupado em passar mais tempo junto com a mulher e seu pequeno filho de seis anos. Porém, sua situação financeira não vai lá muito bem das pernas e arrumar “dinheiro limpo” para sustentar a família, torna-se um problema crônico para alguém que viveu boa parte da vida profissional trocando fluídos perante as câmeras como meio de ganhar a vida.

A inclinação de voltar à ativa fica latejando na cabeça do ex-ator e não passa despercebida pelas mentes na plateia (fictícia em algumas partes do globo). Nesse clima de impotência perante sua condição, Miloš é fisgado por  uma proposta de atuar em um suposto filme de arte para Vukmir, um pomposo e intrigante diretor de filmes pornôs que admira a capacidade quase infinita de ereção do ator.

Até aí, nada demais. O filme segue com uma narrativa “normal”, sem solavancos, pendendo para o cômico de vez em quando, principalmente nos momentos em que acompanhamos as tendências megalomaníacas de Vukmir,  cujo sonho de vida é o de dirigir o melhor filme de arte da Sérvia e, por que não, do mundo inteiro.

Conforme a narrativa toma corpo, podemos pressentir a intensificação de momento de tensão que ainda está por vir, como um clímax malfadado. Esse clima de suspense é, em grande parte, inflado pelos comentários a que  todos aqueles que se propuseram a assistir o filme foram expostos previamente; afinal, quem quis ver o filme, teve de baixa-lo devido à proibição nos cinemas; e um filme proibido, no mínimo, promete alguma encrenca.

Quando Miloš fecha negócio com Vukmir, as coisas começam a degringolar.

Todas as palavras que direi a partir de agora, acreditem ou não, parecerão eufemismos se comparados com a sua contrapartida audiovisual. Miloš é sedado com tranquilizante de cavalo e, por não possuir consciência alguma  do que está sendo forçado a fazer, é induzido a realizar e a assistir uma escalada de abusos e brutalidades, tais como, estupro, assassinato, incesto, tortura, necrofilia e por aí vai.

O visual terroresco ao qual o filme faz apelo, com uma combinação de muitas cenas escuras, câmeras frenéticas e uma atuação muito realista de Srdjan Todorovi – ator que interpreta Miloš -, tornam o conjunto todo da obra  uma bela peça de agonia. É, sem qualquer sombra de dúvida, um filme forte; que, se não merecia uma censura (afinal, qualquer tipo de censura é burra), merecia, ao menos, um maior controle na distribuição e acesso a  menores, por exemplo.

Mas a questão que me interessa aqui, pessoalmente, não é discutir se o filme era forte ou não o suficiente para ser banido. Forte ele é. Absurdo e abusivo em alguns momentos também. Esses são pontos pacíficos, que  praticamente todas as críticas – mesmo as que tenderam para elogio (velado, diga-se de passagem) – concordaram. O que proponho a explorar mais detidamente é sobre um hiato que as críticas suscitaram. Estavam certos os que pontificaram argumentando que o filme abusa ao se utilizar de muitos excessos e apelações. Muitas das críticas pontuaram, corretamente, que tais cenas tinham o objetivo de chocar e causar repulsa no público. De acordo, o filme quis e chocou muita gente. O de que discordo são comentários, espalhados aos quatro ventos, de que essa tentativa de chocar era gratuita e fútil.

Perguntado sobre o propósito daquele que era o seu filme de estreia, e que, até aquele momento, chocara meio mundo e já era sucesso – ou um fracasso, dependendo do ponto de vista -, o diretor Srdjan Spasojevic se defendeu  afirmando que a ideia do filme, de chocar, atendia a dois propósitos: um que era o de realizar algo no gênero do cinema extremo, que ele aprecia muito; e outro, que era o de exibir seus sentimentos mais profundos sobre a  região em que vivia, nos Bálcãs, após quase duas décadas de guerra, cujo saldo, um fiasco em termos de política e de moral, ainda é um tabu.

É justamente esse o ponto que me perturbou: pouquíssimas das críticas que se focaram no teor chocante do filme ousaram tocar na questão do genocídio étnico que os sérvios promoveram na região dos Balcãs na década de  90. À época, sob a liderança de Slobodan Milošević e de seu discurso étnico-nacionalista, grande parte da população sérvia que até então convivera amistosamente com outras etnias e nacionalidades por mais de meio século,  passou a promover um massacre sistemático contra seus vizinhos não sérvios, num afã inconcebível de varrer do mapa populações inteiras.

Seja por ignorância dos fatos históricos ou por endossarem o silêncio que costuma acometer as populações que entram em crise de consciência após perceberem os desastres que corroboraram, as críticas negligenciaram esse  potente teor de crítica social que o filme aborda.

A própria versão do nome do filme para o português peca pela imprecisão.

Retirar o elemento que caracteriza a origem da obra – que em outros idiomas continua levando o epíteto “Sérvio” – é meio caminho andado para a perda do seu conteúdo simbólico significativo.

Estamos tão cansados de ver películas que retratam o sofrimento de judeus durante a Segunda Guerra Mundial, que não ficaríamos surpresos ou chocados com filmes que apelassem no retrato e na denúncia dos maus tratos e  barbaridades dispensados ao povo de Israel pelos alemães. Graças a um povo que ainda hoje tem bastante influência sobre Hollywood, o Holocausto não passou despercebido pela história do cinema.

Mas o que dizer sobre uma série de conflitos que ocorreram naquele ponto obscuro, tanto do mapa quanto do conhecimento das pessoas, que são os Balcãs?

Conflitos, cujas autoridades mundiais à época fizeram corpo mole em solucionar e, paradoxalmente, um esforço homérico em abafar as consequências nefandas.

Se levarmos em conta essa não desprezível realidade histórica, tão bem abordada por Joe Sacco em seus quadrinhos-denúncia, perceberemos que, de fato, o diretor deu um toque de gênio quando o assunto é botar o dedo na  ferida. O filme, se comparado à realidade sofrida pelas populações que caíram desgraçadamente nas mãos dos sérvios, parece-nos de uma poética muito sutil.

Estamos falando, vale a pena lembrar, de um conjunto de guerras promovidas pelos sérvios que são ainda muito recentes, nos quais as feridas mal tiveram o tempo necessário para cicatrizar. O massacre aos Kozovares  remonta ao ano de 1999! O diretor nos força a entender a dimensão psicológica dos abusos e atrocidades cometidos por uma nação temporariamente fora de si, utilizando para tal efeito, cenas aparentemente desconexas com a  realidade. Mas aí é que está: durante os conflitos, houve diversos relatos de barbaridades, sem quaisquer precedentes, pelo menos na segunda metade do século XX. Muitos casos de estupro e tortura em massa (inclusive envolvendo crianças e, pasme, bebês); pulularam execuções sumárias e episódios brutais de genocício, nos quais populações de vilarejos inteiros foram eliminadas, degolando-se os indivíduos perante seus familiares e entes  queridos, para, em seguida, atirá-los, sobre pontes, à rios congelantes.

Desde o fim dos conflitos, os sérvios sofrem com um clima de revanchismo (bastante compreensivo, aliás), alimentado por sobreviventes e familiares ou amigos das vítimas. Muçulmanos, kozovares, bósnios, todos unidos sob  a égide de um ódio comum contra aqueles que compactuaram, passiva ou ativamente, com os massacres. Não menos grave deve ser a crise de consciência que afeta a população sérvia. Obrigada a lidar com os indigestos  acontecimentos que, de uma maneira ou de outra corroborou para acontecer, ela tem de enfrentar agora, uma dívida histórica com as outras etnias e consigo mesma. E, nesse sentido, o silêncio é a pior das atitudes a ser Para o  bem não só de uma nação, mas de todos nós, enquanto seres humanos, episódios como o conflito nos Bálcãs não devem jamais ser esquecidos ou tratados como tabu. Filmes como Terror sem Limites (A Serbian Film) e A  onda (Die Welle) , vêm, justamente, no sentido de nos forçar a abrir os olhos para as realidades que, às vezes, cinicamente, optamos por não encarar com a devida seriedade.

Eles apontam para o fato de que, a despeito de tentarmos abafar o bárbaro, o cruel, o desmesurado, o desumano, todos esses sentimentos ainda estão lá, em algum canto obscuro de nossas naturezas. Basta-nos, talvez, – como  diria o Coringa, o eterno personagem nietzschiano de Batman em “A piada mortal” – apenas um dia ruim. 

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