Entrevista Dimmy 30 jun 2010

Categoria: Especiais Postado por: Harry

 Boas, povo!!!

 Segue ai uma entrevista que o baterista e produtor musical Dimmy cedeu ao site Meus Sons, sobre o cenário independente:

Dimmy fala do mercado independente

foto-div-dimmy02O baterista Demétrio da Silva Miranda Souza, 32 anos, é meio carioca, meio baiano, que mora em Lauro de Freitas – BA. Ex-The Honkers, atualmente nas baquetas da banda Vendo 147, é músico requisitado e um produtor bem articulado da cena independente nacional. Expert em mercado e suas produções,  também faz palestras onde ensina, com sua experiência, o “caminho das pedras” aos neófitos da música. Em entrevista exclusiva, Dimmy nos fala sobre detalhes do mercado indie e dicas para os iniciantes. Confira. 

Qual é a leitura mais apropriada que você faz do mercado musical brasileiro atual? 

Dimmy - Acredito que essa seja a pergunta que tá na cabeça de todos já tem algum tempo, desde que a indústria fonográfica começou a ser desestruturada. O mercado brasileiro vem passando por um processo de modificação muito rápido e isso se da muito por conta da internet, há um tempo o processo funcionava de uma maneira meio que única e óbvia: o artista tentava chegar numa gravadora, essa mesma investia e depois usava o mesmo artista pra poder tirar de volta o que investiu e o lucro daquele produto também. Hoje em dia vemos que o mercado independente tem tomado proporções imensas chegando até a superar números que tínhamos no passado, pois hoje esse “produto” (música) consegue chegar a um número maior de pessoas por conta da internet do que no passado e a tendência é que essas proporções aumentem cada vez mais, uma vez que o mercado independente se consolide frente a esse mercado. 

De que maneira deve ser comportar uma banda ou artista iniciante para sua projeção? 

Dimmy – Costumo dizer nas palestras que antes de qualquer atitude vinda de um “artista” (nunca gostei desse nome) frente ao seu trabalho é de traçar seus interesses, fazer um planejamento. Se você apenas monta uma banda que vai apenas se divertir com amigos, você deve encontrar pessoas com essa mesma intuição e mesmo interesse. Se você quer montar uma banda que tenha pretensões maiores, deve ter pessoas no grupo com o mesmo pensamento… Isso pra que se evite esforço em vão. No caso de projeção de um artista iniciante deve-se criar um planejamento, traçar metas, executá-las… Pensar como uma micro empresa mesmo, onde as pessoas investem no inicio do trabalho, correm com as ações e vão verificando os erros e acertos pra ir sempre ajustando. Destaco também a importância de que dentro desse trabalho, dessa “micro empresa” devem se dividir as funções e as tarefas pra que nunca pese mais pra um lado. 

As regras de mercado das majors e a consciência mainstream tiveram uma grande queda, essencialmente pela falta de visão gerencial adequada quanto às novas tecnologias (internet) e do crescente mercado informal (pirataria). Será isso o fim do artista como produto? 

Dimmy – O artista agora sabe que ele é o produto, diferente de como era no passado, na verdade nunca se foi tão democrático como nos tempos atuais. Vemos artistas aparecendo e crescendo a partir dessa expansão da internet que antes seriam apenas obscuros, claro que muitos deles são prematuros, meteóricos, mas em todo ramo, todo mercado tem esses momentos, porém quem está sabendo lidar com essa ferramenta, buscando aprimorar e acompanhar a evolução da tecnologia tem conseguido alcançar objetivos e destaque no cenário e isso não é relativo a Brasil e sim a todo o mundo. As mídias e redes sociais são grandes aliados a todos esses novos produtos, que poderiam nem ser produtos sem essa grande ajuda. 

Como é possível sobreviver num meio tão concorrido e de saturação artística?
  

boombahia-dimmy02Dimmy - Na verdade essa saturação é relativa, se fosse assim nada se criava no mundo, no campo de alimentos, como na indústria automobilística nem em qualquer outro segmento, o grande barato é a criatividade é a busca por caminhos diferenciados e autênticos e são essas e muitos outros métodos que fazem com que artistas consigam uma fatia desse bolo que parece ter acabado, mas ele tá lá e sempre da pra tirar um pedaço dele. Volto a afirmar que todo trabalho deve ter um planejamento, deve ter organização, disciplina. Concordo com quem falar que é chato e um pouco xiita, porém em toda área de trabalho existe a parte chata, parte burocrática, ou as pessoas acreditam que um surfista só faz ir lá e surfar? Ou o jogador de futebol só faz entrar num estádio e disputar uma partida? Enganam-se quem esquece que existem etapas burocráticas como em qualquer outra atividade profissional e na música não é diferente e o artista tem que, cada vez mais, participar disso, como eu ja ouvi ha um tempo atrás “O artista tem que tomar conta da sua carreira”, na verdade ele deve ser o maior interessado nisso. 

Têm surgido alternativas no meio independente no seu desenvolvimento e manutenção, tais como a cultura dos festivais, a prática eficiente de divulgação via internet e a formação de novas perspectivas de ações como a criação de coletivos. Será que essas novas abordagens concretizam uma nova ordem no meio? 

Dimmy – Eu acredito muito nessa busca por um formato de trabalho, participo de um coletivo aqui em Salvador (Coletivo Quina Cultural) que é ligado ao Circuito Fora do Eixo e percebo que cada vez mais esse é um futuro pra esse mercado que está perdido e que não buscou alternativas pra poder acompanhar a evolução tecnológica. Vejo os festivais como ótimas vitrines pros artistas, tanto os novos como os que já têm carreira consolidada no mercado, cada vez mais os produtores buscam divulgar mais, prospectar mais mídia, fomentar a cena local e com isso ter no seu festival um foco de referência pra esses artistas e com isso todo mundo ganha. Fala-se muito em festivais por aí, mas esquecem de olhar ao redor de que existem pessoas trabalhando pra que esse país imenso que temos seja melhor compreendido e visível pra todos. Hoje se consegue contatos de bons produtores do Acre até Uruguaiana (divisa do Brasil com a Argentina), ou seja, tem pessoas trabalhando pra que o Brasil seja interligado por uma enorme rede independente, facilitando cada vez mais quem busca trabalhar e circular. 

Voltando para as bandas e artistas indies. Diante de tanta concorrência e diversidade, o que é que é primordial e necessário para que esses artistas se mantenham suas carreiras no futuro? 

 

Vendo 147 Vendo 147 

Dimmy – Além de disciplina, organização, planejamento… Deve ser analisando onde esse campo de atuação pode seguir, o caminho pode ser infinito, depende da vontade e interesse desse artista, quando em conjunto (coletivo, grupo) é uma tarefa mais que árdua, pois trata-se de opiniões distintas, mas isso deve ser entendido desde o inicio e levado sempre de forma coerente e encontrar o meio termo para que evite-se o desgaste, com isso acredito que o trabalho pode não perder o glamour do inicio, mesmo porque estamos falando de música, de criação e é claro diversão, porém deve ser uma diversão séria, medindo as proporções do trabalho. 

Independência requer autonomia. Isso é fato no nosso cenário? 

Dimmy – Fato não é, porém pra alguns poucos artistas (falando isso em proporção) isso é mais que fato. Quem quer buscar ter uma carreira sólida, tem como principal objetivo ter o controle das suas ações, terem as rédeas das suas atribuições. Trocando em miúdos, tem que ser o patrão do seu próprio trabalho. Julgá-lo, analisá-lo, destacar pontos positivos, negativos e buscar corrigir os erros, é papo de empresa mesmo, ser autônomo. Esse era um papel executado no passado por outros, o artista apenas queria ser “estrela”, com isso não tinha noção se o trabalho poderia alcançar outros caminhos, não podia ter opinião muitas vezes pelo próprio trabalho e tantas outras coisas que ouvimos com o passar do tempo. Como diz um velho ditado “Quem quer anda, quem não quer manda” e parafraseando uma música do grande André Frank “Não faço nada, porque tudo tanto faz e eu continuo a esperar que tudo caia do céu, mas eu não faço nada” 


O que e quem você destacaria atualmente nesse meio? E por quê?
 

Dimmy – Eu destaco a ação desenvolvida pelo Circuito Fora do Eixo que na minha visão tem apresentado um formato coerente e honesto de trabalho pros artistas desse nosso cenário independente. Não gosto nunca de citar nomes de artistas, nem de bandas, pra evitar ser injusto, pois a memória sempre falha, porém tem três pessoas que eu admiro e sigo seus passos: Leonardo Panço (Jason/ Tamborete), Fábio Mozine (Mukeka di Rato, Merda e Os Pedrero/ Laja) e André Frank( Asrtonautas/ QG Produtora), esses três rapazes são pra mim como o Led Zeppelin, Deep Purple e o Black Sabbath, o pilar da minha referência. Costumo muito citar exemplos de bandas como o do Retrofoguetes e do Cascadura que estão aqui do meu lado (Salvador) e mostram a cada dia que tem uma carreira consolidada, que tem controle do seu trabalho e conseguem cada dia que passa dar ritmo ao seu trabalho e seguir muito bem no caminho. Vejo também como louváveis trabalhos como o do Macaco Bong de Cuiabá (que eu costumo dizer que abre caminhos pra que depois outros artistas passem) Caldo de Piaba do Acre que é um lugar que as pessoas só conhecem porque viram nos livros de geografia e é uma grande banda que consegue encantar por onde passa e vem conseguindo com muito esforço e trabalho levar a sua carreira. Acompanhei por anos o trabalho do Relespública de Curitiba, virei amigo dos músicos e me serviu como referencia de trabalho também e o Astronautas que me serviu muito como escola, por ser amigo do André Frank. Acompanhar e trabalhar ao lado deles e também acreditar no formato de trabalho levado por eles. Não vou continuar falando aqui senão essa lista não acaba, porque tem muitos artistas por esse Brasil que serve de exemplo e lição tanto pra garotada que ta chegando agora nesse mundo, como pras pessoas que já estão aí e estão por algum motivo sem conseguir seus objetivos. 

Contato: dimmydasilva@gmail.com
Vendo 147: www.myspace.com/vendo147
Ep da Vendo 147 para download: http://www.mediafire.com/?mwdjt3qdnmz

 Foto da banda por Bruno Sarraf.

Fonte: http://meusons.yd.com.br/